16 julho 2013

as duas mulheres de Ricardo Reis

(...) Lídia deu um passo para ser abraçada, e ele a satisfez, julgando que por mero comprazimento, mas no seguinte instante beijava-lhe o pescoço, ainda não consegue beijá-la igualitariamente na boca, só estando deitados, quando o momento supremo se aproxima e se perde o sentido, ela nem a tanto se afoita, deixa-se beijar e o resto, mas hoje não, Vim só para saber como está instalado, aprendeu esta palavra na indústria hoteleira, oxalá não deem pela minha falta, e ver os arranjos da casa, ele queria levá-la para o quarto, mas ela soltou-se. Não pode ser, não pode ser, e tremia-lhe a voz, porém a vontade era firme, modo de dizer, que a sua vontade verdadeira seria deitar-se naquela cama, receber aquele homem, sentir a cabeça dele no seu ombro, só isto e nada mais, apenas tocar-lhe nos cabelos da cabeça, como um afago que não ousa tudo, se tanto podia permitir-se (...)




(...) Vou beijá-la, ela não respondeu, num gesto lento segurou o cotovelo esquerdo com a mão direita, que significado poderá ter o movimento, um protesto, um pedido de trégua, uma rendição, o braço assim cruzado por diante do corpo  é uma barreira, talvez uma recusa, Ricardo Reis avançou um passo, ela não se mexeu,(...) vê o rosto do homem aproximar-se devagar, sente um soluço a formar-se-lhe na garganta, na sua, na dele, os lábios tocam-se, é isto um beijo, pensa, mas isto é so o princípio do beijo, a boca dele aperta-se contra a boca dela, são os lábios dele que descerram os lábios dela, é esse o destino do corpo, abrir-se, agora os braços de Ricardo Reis apertam-na pela cintura e pelos ombros, puxam-na, e o seio comprime-se pela primeira vez contra o peito de um homem, ela compreende que o beijo ainda não acabou, que neste momento não é sequer concebível que possa terminar, e volta o mundo ao princípio, à sua primeira ignorância, compreende também que deve fazer mais alguma coisa que estar de braços caídos, a mão direita sobe ao ombro de Ricardo Reis, a mão esquerda está morta, ou adormecida, por isso sonha, e no sonho relembra os movimentos que fez noutro tempo, escolhe, liga, encadeia os que, a sonhar, a erguem até à outra mão, agora já se podem entrelaçar os dedos com dedos, cruzarem-se por trás da nuca do homem, não deve nada a Ricardo Reis, responde ao beijo com um beijo, às mãos com as mãos, pensei-o quando decidi vir, pensei-o quando saí do hotel, pensei-o quando subia aquela escada e o vi debruçado no corrimão, Vai beijar-me. A mão direita retira-se do ombro, escorrega exausta, a esquerda nunca lá esteve, é a altura de o corpo ter um movimento ondulatório de retração, o beijo atingiu aquele limite em que já não se pode bastar a si mesmo, separemo-nos antes que a tensão acumulada nos faça passar ao estádio seguinte, o da explosão doutros beijos, precipitados, breves ofegantes, em que a boca não se satisfaz com a boca, mas a ela volta constantemente, quem de beijos tiver experiência sabe que é assim, não Marcenda, pela primeira vez abraçada e beijada por um homem (...)

José Saramago, "O ano da morte de Ricardo Reis" 


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