03 março 2009

'postal para o apagador' (por JLP)




Postal para o Apagador


No fim da rua do Alecrim, parece tão convencionalzinha a "Vitrine" gigante de Joana Vasconcelos ao pé dos gratuitos grafítis do prédio abandonado, ao lado.

Escreve Proust: "A beleza das imagens situa-se por detrás das coisas, a das ideias na frente. De sorte que a primeira cessa de nos maravilhar quando atingimos estas, mas só compreendemos a segunda quando as ultrapassamos."

Agora chato é o resto. Sejamos modernos de novo, contra a tristeza formatada de tantos desses pós-, neos, retros e o diabo a sete.

Os pesos-pluma de Rui Chafes são eternas frases de osso, belezas matemáticas. Mas arrisco a blasfémia: pintar uma ou outra de cores vivas, erradas, grossas e infantis, não poderia abrir-lhes as vogais?

E quando é que Tomás Cunha Ferreira faz um mural? E objectos-de-ocupar-espaço, coisas em relação às quais não se possa dizer "pintura"?

É preciso tirar as artes plásticas do gueto do dinheiro, warholizar já não a coisa em si mas o caminho até ela.

Na canção do Santo Popular, Samuel Úria diz "pobre" ou "pop"?

Talvez a pintura também pudesse ser myspaçada. Por exemplo, reciclar a ideia de "objectos encontrados" para a era do "faça você mesmo". Achar outros, novos, vários "por exemplos".

Como destraduzir para hoje as procissões-actuações de Albuquerque Mendes?

Brincar aos movimentos, inventar um que juntasse três ou mais pintores de Lisboa, podia chamar-se os Coloristas. Sair da pintura. Reentrar na pintura, forçar a inocência própria, começar do zero mais honesto e mais radical. Tudo mais político, de um novo político, porra.

Atacar a cidade. Fazer uma revista de periodicidade eventual, fazer cartazes inúteis, pintar paredes importantes, mudar a vida das pessoas, oferecer obras-primas grátis, recomeçar dos nossos 17 anos, mudar o mundo antes de morrer, dar nome a uma cor.


todo o texto rapinadíssimo  daqui

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