23 agosto 2007

delicatesse




antes chegava e tratava-te por você.

aninhava-me em teus joelhos quando chegava triste -eu. tu nunca. mexias-me no cabelo com mãos de quem borda e cozinha como ninguém. perfeitas elas. delicadas como mais nenhumas.
com elas batias-me na boca sempre que da minha saltava alguma palavra menos bonita. com elas batias-me nas minhas sempre que algum dedo se tinha avizinhado da boca. muitas vezes portanto mo fizeste. nunca chegava a adormecer em teus joelhos. não pelas tuas mãos de lã mas pelo peso do que dizias.
carregavas nas palavras aquilo que o teu corpo agora carrega.

agora trato-te por tu. ou por você.
é-te indiferente.
às vezes vês-me chegar. umas contente. às vezes o meu nome.
outras procuras a criança que não tenho.
segunda sentei a teu lado. lembrei-te e às tuas mãos há cinco anos.
todos sabemos que há vezes que também tu lembras, e essas caiem lágrimas delicadamente tristes pelo olho que ainda teima em abrir. não gostamos quando isso acontece.
torna-se-me mais fácil tratar-te por tu. perguntar-te meu nome repetidamente sempre que me vês chegar. contar-te vez após vez quem é o k. explicar-te que esse quarto onde é agora a tua casa não é um hotel, 'olh'avó, é o crucifixo ali em cima da cama'.
dói menos assim. porque dizes em tom de segredo que és mimalha. e ninguém pode saber. porque senão te tiram o mimo.

1 comentário:

  1. um beijo do tamanho do mundo em ti!
    m beijo na tua avó
    no teu avô
    na tua mãe.
    *

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