05 junho 2014

insónia #63

descobrir o meu corpo com o teu.

02 junho 2014

insónia #62

se o meu coração não sacudisse tanto, escrever-te-ia.
qualquer coisa como:

naquele instante em que da tua boca voltou a sair a palavra rio.

é apenas isto,
o que tenho para te dizer.




27 maio 2014

insónia #61 (os sonhos são em redondo. Volto sempre a ti)


quero escrever-te. Dizer-te todo, só com as minhas mãos.


20 maio 2014

hoje


a chuva leva-o para longe de mim.

se alguma vez fomos perto, foi em dias amarelos.
a cada palavra tua
os dias parecem cada vez menos dias.

15 maio 2014

'um dia arranjo-lhe um nome'

























© ana cardoso, 2014

'um dia arranjo-lhe um nome'

Passaram-se cores, cheiros e abraços. Dias em que se escreve apenas no ar. Desenho histórias como quem faz uma cama de lavado. Esta noite outra vez ele. Um dia arranjo-lhe um nome conforme. Ninguém pode existir apenas no sonho. Ele é. Ou era; na verdade já não é mais. Quando a noite cai lá fora ele, por vezes, vem. Ou até durante o dia. Sim, é isso: às vezes a noite vem a mim quando é ainda azul claro lá fora. Que dias são esses em que ele traz a noite para junto de mim? Às vezes penso que são noites compridas, ou então dias que tardam em chegar. Um dia arranjo-lhe um nome. Um nome diferente do que ele já teve.
Em tempos, o nome dele era suficiente. Só tem nome quem eu posso chamar. Agora que já não posso mais ele se transforma em figura lá longe. Felicidade ou dias felizes que já não são corrompem o nome. A saudade o transformou em olhar carrancudo, assim sério, com ar de juiz. Que diria ele do que agora escrevo? Faltam artigos, palavras e métrica. Principalmente os tempos verbais. Mas nós nunca chegamos a ser verbo, e o futuro do pretérito foi sempre o nosso tempo.
Não gosto de nos comparar a verbos. Prefiro melodias.
Um dia, quando ele ainda tinha nome, escrevi-lhe: Somos Vivace ou Allegro ma non tropo, que o tempo do Grave e do Adagio já lá vai e foi guerra que não soubemos travar. Sei que nunca chegaremos a Prestíssimo (o que em nada me transtorna. Sei-nos melhor assim). Se pudesse escolher, seríamos um lugar a meias entre Vivacissimo e Presto.
Existe algo de muito bonito em sinfonias imperfeitas.
O amor, esse, é gerúndio,
vai-se fazendo, piano piano
ou até ao metrónomo se cansar.

Nessa altura julgo que ainda tínhamos os dois um nome. Eu achava que não, mas na verdade nós é um nome. Para podermos ser nós todo o mundo lá fora tinha de deixar de existir. Teríamos que arrancar as palavras às pessoas e as pessoas às palavras e ainda rasurar todos os rostos.

Voltei às palavras. A palavra foi tudo o que provámos. Não há nada de bom em esquecer o cheiro da carne. Se fosse eu a inventar o universo, carne deixaria de ser um lugar para ser o verbo mais importante. Eu carne, tu carne, ele carnes. Carne e carne - igual na primeira e na segunda pessoa do singular. Conjugaríamos a primeira pessoa do plural como melhor nos aprouvesse. Podia até variar com a estação do ano. Do que eu pude perceber, o corpo dele tem cheiros diferentes. Gostei especialmente do cheiro que a Primavera trazia nele. Passeava-se pelo meu corpo, como as andorinhas se passeiam, de manhãzinha, pelas paredes do meu quarto. E na hora de ir deitar éramos os dois um só. Ou só um, que são coisas diferentes. Não sei se isto é possível. Se lhe tirar o nome então talvez seja possível. Às vezes gosto de tirar o nome às coisas. Não sei ao certo o que desaparece primeiro, se as coisas se o nome. Agora que me obriguei a pensar nisto, julgo que primeiro desaparecem as coisas. O nome que dele desapareceu perdura em mim.
Já não o sei de desenhar de cor. A voz, assertiva, ora suave ora com tom grave, mas sempre séria, há muito que me saiu da lembrança. Às vezes esqueço o que não quero esquecer; parece até que quanto mais quero lembrar mais se me fogem as coisas. Mas a voz não era coisa muito importante nele. Era assim meio neutra.

08 abril 2014




não quero adiar abraços

quero ficar só mais uma vez

04 abril 2014

sinopse CAAA

título: UM DIA ARRANJO-LHE UM NOME


um dia arranjo-lhe um nome é constituída por uma série de trabalhos que emergem de uma reflexão sobre amores impossíveis ou da impossibilidade de um amor.
Numa linguagem construída a partir do emparelhamento do desenho com a palavra, pretende-se, tomando o objecto escada como metáfora, abordar conceitos referentes à impossibilidade de um nós.
Numa exposição que se poderia chamar também que dias são esses em que trazes a noite para junto de mim, ou o último adeus, ou no dia em que te esqueci a voz, abordam-se bipolaridades como a presença e a ausência, o encontro e o desencontro, o sonho e o real, a noite e o dia, a palavra e a carne, a possibilidade e a impossibilidade, a vida e o destino, o toque e o esquecimento, o corpo e a saudade do que pode ser apenas ideia.

03 abril 2014

guardadora de silêncios


Quero fazer do adeus um novo caminho:
de mim para mim
Ou de dentro para fora

Sempre que ouso lembrar, esqueço o teu nome.
guardo as tuas palavras como quem guarda silêncios.


era bonito vê-lo caminhar
em caminhos que foram os nossos.

nada ficou desse caminho
digo o teu nome às pedras.
as pedras sonham sozinhas.




20 janeiro 2014

o empurrão que faltava

adeus

reclamo a vida para junto de mim

19 dezembro 2013

duas da tarde

quem, como eu, te soube um dia o coração
saberá que o inverno não espera
nós: oceano lá longe


hoje, depois de te ter deixado,
teve demasiados minutos o dia.

09 dezembro 2013

ainda

no instante em que largamos as nossas vozes no rio,
devolvi ao rio a palavra espera.
lá em baixo, 
com ele (outra vez os hemisférios)
retorno. à palavra.

que à tua voz, foi como às tuas mãos, assim:
numa lua cheia, naquele momento em que o céu e o rio rumam noites e vidas diferentes,
esgueirei-me,

dancei nua aos deuses,
pedindo de volta a tua voz e o teu toque.
tu, para junto de mim.

23 novembro 2013

palavras que fogem

o rio que já não sabe ser rio.


palavras que fogem como histórias que o mundo esquece e cala.
fomos rio que o silêncio transformou em nuvens.
nós como livro gasto;
letras apagadas. 

a ausência. 
o inverno como as nuvens. 
as nuvens como o rio.
o rio como a palavra que a terra engoliu.

04 novembro 2013

pouco no resto,

muito aqui:



















© ana cardoso
02 . outubro . 2013


mudaste de casa

neste dia de enfermos,
deixo cair o Sue para não te lembrar.
tomo a Tabacaria em meu leito: é curta mas não existes em uma única palavra.
apesar do rio, retomo a Clarice;
como ela, as dissonâncias aprazem-me, também como ela as melodias por vezes cansam-me.
como nós, ela sabe o agridoce do rio.

Já foi o meu aniversário.
(antecederam-lhe dias de limpar as estantes dos mortos.
empilham-se livros na parte mais alta da casa)
Não te lembraste de mim, ou não quiseste que eu soubesse que me lembraste.
(o aniversário como um obituário)

25 setembro 2013

insónia #60

a noite susbtitui-me os sonhos

madrugada,
uma fenda de sol irrompe pela janela,
passeando-se, alegremente, pelo meu quarto.
despertei com o timbre da tua voz

bonita
os teus lábios sobre os meus

resta-me
a espera
ou
perfilhar o abandono

dizer adeus aos deuses
devolver à estante um livro de histórias inacabadas
acolher a morte como o último abraço que não foi

os lençóis ao abandono. uma cama por fazer:
conservá-la assim
até ao dia do teu regresso
é distrair a morte
ou
defraudar a vida.

24 setembro 2013

agora, sem ti



que faço eu
agora

com a palavra
amor,
agora

as nuvens
rasteiram o chão,
varrem tempestades,
aligeirando o céu

enleando horizontes.



20 setembro 2013

por detrás de uma porta
em contra-luz: o resplendor.
porta de ferro encravada, não abre nem fecha.
à prova de bala, blindada,
como deveria ser o amor.

hoje, a cegueira.
largaram-me numa esquina,
em lugar novo e incerto.
em lugar qualquer.
abandonada,
não sei para que lado és tu. 

16 setembro 2013

o outro lado da moeda

depois há outras horas. às vezes prolongam-se no tempo e espaço.
quando ainda vens
fazes sombra ao pouco sol que me enche a vida.

o coração, cheio de nada.
não há sonatas que abafem o quanto padeço.

tem dias.
faz um bocado de luz quando te presumo em sossego.
saber que jamais te saberei são nuvens.


13 setembro 2013

trumpet concert in E flat, 3rd movement (1796)

Haydn e o mar.
nem o rio nem tu fazem falta na equação.

09 setembro 2013

virar costas ao rio


A saudade guiou-me hoje até ao rio;
esse mesmo rio que dizíamos nosso.
Encontrei-o sozinho; afinal o rio fomos nós que o fizemos.
Eu e o rio, de mãos dadas, aguardamos a morte;
que a vida não é possível sem as tuas palavras, braços e lábios.

Estava de vestido florido e de botas parisienses,
preparei-me a rigor, como sempre fazia quando ali, sentados, trocávamos juras de amor pecaminosas.
Quem sabe o que o rio sabe,
saberá o adeus. 

A ausência deveria ser uma coisa silenciosa.

04 setembro 2013

nostalgia

os pés procuram o chão,
como quem procura caminho que faça sentido.
a norte. sei-te longe:
o solo que pisas não é o teu;
apenas porque nunca tiveste coragem para almejar terra que te servisse.

03 setembro 2013

folhas

setembro é mês de recomeços.
de procurar rosas entre folhas caídas;
tal e qual como quem procura o amor. 
ter cuidado onde se pousam os pés,
como a quem se entrega o coração. 

30 agosto 2013

bandeira branca

tempo de baixar os braços,
limpar as armas como quem esquece o coração.
por vezes, sinto-me mais que tu;
nesses momentos a tristeza enche-me a alma.
gostava o meu coração como o teu,
mas o meu coração é quente
e ainda assim, 
depois de todos os adeus
tu cabes nele. 

25 agosto 2013

um não feito de amor

o sol, contra tudo que se esperava quando me acordaste, apareceu.

a brisa outra vez; outra vez tu.
lembro quando nos chorámos.
não há maior jura de amor eterno que duas pessoas se dizerem chorar uma à outra, sem pudores;
nós: como se despíssemos a alma um do outro só com a palavra.



23 agosto 2013

brisa

não fosse a brisa que aqui faz a percorrer-me o corpo e estaria morta;
lembro-te.
relembro o dia que me disseste que não me podias ver;
(preciso de uma pausa para contar até dez)
(dez parece pouco)
imagino que me apareces, aqui e agora, por trás: não me reconheces,
já tão longe vão os dias, que o teu corpo não saberá mais o meu. 
não é tempo de acabar com isso?
quanto menos me olhas mais eu te lembro.
quanto mais te lembro, mais enganada fico sobre como te sei.
pesa-me o silêncio de não podermos falar sobre isto.
tenho o coração como uma encruzilhada.

19 agosto 2013

palavras em movimento

quem se deleitou como nós o fizémos nunca será capaz de dizer 'palavras, leva-as o vento'
as nossas palavras movem-se, também, mas ao longo dos eixos de que a nossa carne é feita.
as tuas palavras sobem e descem na minha,
fazendo do meu coração o seu porto de abrigo
como outrora se alojavam no ventre e a ele voltavam sempre.
o poder das palavras escritas é em tudo maior que os teus olhos; que quanto mais os afastas de mim, mais o meu coração se te aproxima. em tudo o oposto que procuramos.

umas ditadoras, as palavras.

ignorância

não te condenes.
como poderias tu adivinhar-me o coração?

o rio nunca nos há-de esquecer, e a cada vulto que aviste procurará os nossos rostos. em vão.



15 agosto 2013

o amor é feito de pequenos nadas


faltaste-me,
uma falta que desce do céu como milagre,
repondo a ordem na terra.
ontem mudei de morada,
o meu lugar és todo tu.

quero fazer das nuvens as nossas cadeiras.
uma defronte da outra.
copos cheios,
o meu corpo vazio, agora apenas, porque espera a noite.


11 agosto 2013

espera

o meu coração aguarda notícias tuas
para que depois, aqui, me seja possível transformar lágrimas em palavras. 

10 agosto 2013

não saber as palavras

li hoje que as palavras não dizem.
hoje escrevi-te como se as palavras estivessem em saldo; talvez não tenha dito muito
ou o muito que disse nada te tivesse dito. 
dirigiste-te a mim de uma forma muito rara,
preocupando-me a alma, prefurando-me o coração e esburacando o pouco orgulho que me restou destes três ultimos meses.
às vezes nem eu sei porque te insisto;
é como insistir em olhar para o sol.
as tuas não-palavras foram como aqueles bilhetes de condolências que se penduram nos ramos de flores em velórios. 
encontro-me viva, mas não sei quanto mais sobreviremos.

08 agosto 2013

amar o desconhecido

pareces-me mais perto nestes dias.
é ilusão com a qual consigo sobreviver.
mata-me o coração não te saber;
saber assim como quem sabe.
também eu guardo muitas coisas para mim
ou melhor
tento não as lembrar,
para que, em separado, possamos a felicidade.
tivesse eu direito a esfregar a lâmpada e pediria:
abre-te a mim; confessa-me os motivos das tuas tristezas; deixa a tua alma falar-me; entrega-me a tua alma.
mas vamos apenas naquilo que podemos
e tu acreditas que podes tão pouco
que se me esvazia o coração. 

faz-me falta confissões da tua alma;
sinto / sei que não te conheço.
como pode amar-se o desconhecido?


07 agosto 2013

pontualidade

tenho um vazio dentro de mim:
é que faço das tuas palavras excepção à minha dieta;
tu que me alimentas a alma, as noites e os dias.
quando não vens não te reconheço a pontualidade.
até eu que, ao contrário de ti, te desconheço a alma, suspeito o pior;
encontro-me, que nem Dzenana, ansiosa;
num misto de ansiedade e descontentamento.
não te reconheço a falta de palavras, 
sinto-me, uma vez mais, filha do engano.
poderia tranformar-me em algo que nunca conheceste, intransigente.
é que a dissonância de hoje apenas mordeu;
sabes demasiado de mim para o que sei de ti.
(desculpa-me não saber ser bonita, mas o bonito de feio é coisa que o vento enterrou na areia; por fim, vejo a minha alma ao espelho e a ausência de reflexo confirma o que temia: perdi-te a beleza e as palavras).
o amarelo dos dias esvanece-se e leva-te para longe de mim.

05 agosto 2013

que é o mesmo que dizer


ser mais bonita em paris

hoje o silêncio corrompe ainda mais.
de tão inesperado que é,
evito revisitar palavras apagadas;
de nada me serve.
o silêncio é, afinal, o contrário do vazio. 

por ti aprendia Francês,  
para que juntos ao anoitecer, com os gatos aos nossos pés num quarto clandestino, iluminado apenas por uma vela,
tu adormecesses com a cabeça reclinada sobre os meus seios,
enquanto te lia Zola. 

04 agosto 2013

entra e sai

as palavras nunca me foram tão voláteis;
faço delas a minha culpa e desculpa,
tu, que te transformaste em palavra apenas, vens e vais, entras e sais da minha boca sincopadamente - tal e qual publico e 'despublico' aqui.
nunca percebi os nossos movimentos,
somos feitos de notas apenas; não há, apesar da sintonia, partitura que nos sirva;
cada palavra tua são dissonâncias no meu coração.
tinha razão em temer o rio, 
as palavras mordem. 

02 agosto 2013

postal sem selo #48

























meu querido,

hoje, na Missa, lembrei-te tanto e tanto, que tive até que fazer dos meus olhos uma barragem.
fazes-me falta.
não sei se me faltaria, pela primeira vez, coragem para me te confessar;
mas, agora, que és longe (segundo a homilia, o oposto - perto) confessei-me a ti como nem a mim o consigo fazer.
talvez o padre tivesse razão; talvez me estejas mais próximo do que nunca. dói imaginar proximidade maior da que tivemos em vida.

baralham-me as palavras dos outros; normalmente é ao contrário - tu eras a excepção.
fazes-me falta. tanta.
peço-te que apareças durante a noite de hoje e chutes o outro (sei que sabes) porta fora do meu quarto. não me açoites por favor, que busco penitência em mim mesma.
quero / preciso de te contar a viagem. o romance. a exposição. a Anne Frank da Bósnia que me soube e me quer ajudar. (sei que sorris um sorriso de orgulho, passando a tua mão pela minha)
tenho tanto para te dizer que pouco te deixarei falar. nada a que não estejas habituado. limita-te a interromper-me com as perguntas do costume - aquelas que não te deixo acabar; sempre te adivinhei as perguntas. sempre me adivinhaste as respostas. (recordas-te da vez em que me ias começar a descrever um quadro, e antes de sequer dizer a cor tamanho figura, eu adivinhei o nome do artista? faltam-me estas sintonias)
fazes-me falta. volta.

um carolo
a

01 agosto 2013

o (des)amor puxa carroça



dedico-me às letras agoras, porque tu não me sabes as palavras. 
tenho / devo agradecer-te a surdez e os cuidados paliativos.
a desilusão abre janelas; talvez te encontres feliz por mim: quem faz do sofrimento felicidade presumo que assim sinta.
pedi-te que deixasses o resto até ao equinócio; apaguei esse pedido - não me sinto no direito de pedir mais nada (e lembrei-te o pedido de permissão de aqui me visitares, de aqui seres tu, de aqui escreveres).

eu: procuro. encontro. e faço dos perdidos e achados o meu coração. 

31 julho 2013

saudades da ficção

não julgues que não sinto, ainda,  as tuas mãos em mim;
tu que és feito de carne, marcaste-me, ontem, o corpo e alma; marcaste-me a parte do corpo que mais gostas numa mulher: toda ela de uma ponta à outra
pode ser a carne feita de ausência?
amei-te como a poucos ousei; díficil este meu amor, que tornaste impossível. 
fazer do possível impossível não é tarefa leve. 
(talvez um dia me compreendas o corpo e a alma e decidas dar ouvidos ao coração; não sei se lá estarei - eu que já nem o número te tenho - talvez, talvez me surpreendas com um novo tu corajoso; e talvez, talvez a barca volte a atravessar o rio nesse dia. talvez. o arrependimento é coisa que nunca desdenharei)

30 julho 2013

lembrar o tempo



(Julian Cortázar)

tempo de virar costas

de me ver apenas a mim reflectida.
o que quase me tornei assombra-me a visão.
de tudo faço para a ignorar. 
diz ela Tornaste-te um deles, rejeito-lhe as palavras, Estou firme, De que te serviu essa firmeza- pergunta a sombra, De nada, de nada. Mas quiça um dia volte a ser capaz de me olhar ao espelho e saber ver que agi correctamente, apesar da falta de futuro e talvez, não sei será pedir demais, a sombra da humilhação já não me ofusque. 
(não ignoro o facto de o espelho ter razão, assim como eu tenho as minhas- de nada me serve ser assim. as vitórias conquistam-se quando a alma não se intromete entre o reflexo e o espelho) 

asas feridas

um dia levantarei voo.
num dos teus passeios rotineiros verás asas feridas, postal sem selo, carta em branco (tanto me faz o nome- irrelevante, tal como me sou) numa estante da Fnac. 
vislumbrarás um oásis que não é;
um milagre numa curva contra-curva. resgatarás memórias e
lembrar-te-às das armadilhas e embustes que transformam amantes em areia. 

petrificação

a transparência petrifica línguas e letras. 
candura é algo que muitos como tu, querem, à força do engano, acreditar. 
é mais fácil deixar-se levar pela beleza do rio, do que ver nele os reflexos. 

a navalha e a rede

quantos adeus proclamamos já?
houve, hoje, algo no rio, que me fez ter vontade de o atravessar;
como muitas vezes aqui escrevi: do outro lado do rio quem manda sou eu.
o vexame a que, hoje, me subjuguei não tem barca nem margem possível. 
atravessaria eu o rio, riscar-me-ia do mapa, não só de ti mas de todos os que petrificamos.
lamento dizer-te, mas há promessas difíceis de cumprir; a força do rio, que acreditei sermos, quebra os fios que mantêm a barca à tona. 
entro no barco, sem receios, preocupada com a vida (tu saberás completar a frase) e na ausência da força dos fios. 
jamais olharei o rio, da mesma forma que jamais tomarei o fio em minhas mãos.
também eu tenho direito a quebrar promessas e a permitir-me fraquezas.
é o fim
eu serei o rio, tu as estrelas que apenas nele se reflectem

29 julho 2013

sonhar acordada

de que me sirvo?
tu foste o primeiro a dar e a tirar por quem me apaixonei.
de nada me valem batalhas.
de que te sirvo? 
condenaste-nos à nascença;
e eu, na ignorância, que nem criança que ignora os labirintos da vida, ainda acreditei em nós e no poder do amor.
não se vencem batalhas com o amor;
aprendi isso hoje, quando me trajei com um fato que, afinal, não me assenta a felicidade.
um pouco menos eu e encontrar-me-ia apenas acordada, ao invés do sonho.
de que me sirvo? 




27 julho 2013

tarde demais


a noite traz o teu cheiro para junto de mim.
olho-me ao espelho e és só tu que eu vejo;
apoderaste-te dos meus sentidos,
fizeste do meu coração a tua nova casa.

hoje é tarde demais para mudanças.

25 julho 2013

por Maria do Rosário Pedreira



Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes de viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos - tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos - nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.

24 julho 2013

toque

calafrios, uma corrente eléctrica, que se demora no ventre e ao ventre retorna, percorre-me o corpo de uma ponta à outra; 

tocas-me a medo, como quem toca um Lalique, como se eu fosse feita de cristal e o teu corpo apenas seja capaz de estilhaçar o meu.